Cervejeiras na Idade Média
- Letícia Garcia

- 8 de jan. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 26 de jul. de 2021
Sou jornalista na Revista da Cerveja há 9 anos e, desde o início da publicação, matérias produzidas e escritas por mim estão nas páginas desta revista pioneira no mercado cervejeiro brasileiro. Vou postar aqui, ao longo do tempo, trechos de algumas das reportagens que mais gostei de fazer. Para ler na íntegra, clique no link ao final para adquirir sua edição ;)
Alewives, brewsters, cervejeiras: eram as mulheres as principais responsáveis pela produção da cerveja durante a Inglaterra medieval. Como foi esse período e o que levou à mudança no cenário, que afastou mulheres da produção?

Quando se fala em cerveja durante a Idade Média, a principal imagem que vêm à mente de muitos é a de mosteiros e abadias, templos da produção. Esses locais foram, sim, fundamentais, principalmente para o estudo e aprimoramento da bebida, com fabricação organizada desde o início desse período.
Mas, ao mesmo tempo, a cerveja de todo dia, a que chegava à maioria da população, abastecendo canecos pelas vilas medievais, vinha das panelas das alewives, como eram chamadas as cervejeiras da Inglaterra entre os séculos V e XV. É dessas produtoras inglesas que precisamos saber mais.
A produção de cerveja por mãos femininas não é uma novidade da Idade Média. Desde o seu surgimento, fazer esse fermentado era uma atividade predominantemente caseira — portanto, conforme as divisões estabelecidas socialmente, responsabilidade das mulheres da casa. E isso se seguiu na Inglaterra do período medieval.
Garrett Oliver registra no livro “A mesa do mestre-cervejeiro”, que “embora, nas sociedades europeias, [as mulheres] não tivessem os mesmos direitos dos homens, havia várias leis medievais estipulando que os recipientes caseiros usados no fabrico da cerveja eram propriedade particular da dona de casa”.
Do caseiro para o negócio
As mulheres faziam cerveja, primeiramente, para abastecer a família. O excedente dessa boa cerveja produzida, com muita prática, fez surgirem as primeiras alewives. Elas começaram vendendo cerveja na própria casa a quem chegasse com sede — e logo eram donas de um pequeno negócio cervejeiro. Muitas se tornaram donas das famosas tabernas. “Essas mulheres eram popularmente chamadas alewives (literalmente, “esposas das Ale”), enquanto o termo pandoxatrix era usado nos registros e documentos fiscais”, escreve Ronaldo Morado em “Larousse da cerveja”.
“Um documento de 1086, o Norman Domesday Book, registra a existência de 43 estabelecimentos desse tipo na Inglaterra. No início do século XIV, já havia um para cada 12 habitantes.” As cervejarias da Idade Média eram assim: pequenas, locais, com produção em baixa escala e espalhada pelo território, com diversas produtoras, cada alehouse fazendo um pouco para abastecer o seu entorno.
Item fundamental
Fazer cerveja era um processo amplamente conhecido e presumia-se que todas as mulheres eram competentes para tanto — o que acabava, muitas vezes, fazendo com que não fossem devidamente valorizadas. As ferramentas e insumos também estavam disponíveis com facilidade: basicamente, água e grãos diversos, especiarias que formavam o gruit e levedura, ainda não conhecida, mas que vinha de uma fermentação anterior. Ficava pronta em poucos dias e durava poucos dias também.
A cerveja produzida era sem lúpulo, a única cerveja conhecida até então, que era chamada de Ale pelas famílias inglesas e era item fundamental na sua dieta. Pessoas de todas as idades e de todas as camadas sociais consumiam cerveja porque era mais saudável, mais segura e mais acessível do que outras bebidas da época.
Oportunidade de sustento
No século XIII, menos de 5% dos cervejeiros locais eram homens na maioria das vilas inglesas — tanto que o termo feminino, brewster, era usado para indicar o produtor de cerveja de forma geral. A venda de cerveja passou a complementar a verba familiar, no caso das mulheres casadas, trazendo certa independência financeira dos maridos (aquela possível no período). Era possível encaixar e produção e a venda entre outras responsabilidades que tinham e os membros da família ajudavam na produção.
Mas fazer cerveja foi principalmente importante para as mulheres solteiras e viúvas, tornando-se a sua fonte de sustento — ou pelo menos uma boa parte, complementada por uma segunda atividade. “Em um mundo que dava limitadas oportunidades de trabalhos qualificados e bem remunerados para solteiras e viúvas, fazer cerveja destacava-se como uma excelente opção para mulheres que viviam sem homens. Cervejeiras não-casadas viviam bem, se comparadas ao padrão de outras mulheres não-casadas”, escreve Judith Bennett no seu primoroso estudo “Ale, beer and brewsters in England: woman’s work in a changing world”.
Profissão possível
Até o século XVI, o negócio era supervisionado por um “tribunal” (assize) cervejeiro, com regulamentos que definiam a qualidade e as medidas exigidas e fiscalizadas por aletasters (degustadores de cerveja). Muitas cervejeiras escapavam a isso, mas não todas, e em grande parte foram esses registros que permitiram a pesquisa de Bennett sobre a produção das cervejeiras no período.
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